Do Apoio ao Sucesso: 2ª Pesquisa Nacional sobre Quadrinhos no Catarse
A maior pesquisa de todos os tempos sobre os projetos de quadrinhos na plataforma nacional de financiamento coletivo
Introdução
Olá! Sei que o Além dos Quadrinhos andou sumido por aqui. A vida apertou, os prazos se acumularam e, diante disso, tivemos que escolher onde concentrar nossos esforços - que acabaram indo 100% para a nossa página no Instagram. Desde o último envio por aqui, em 2 de janeiro de 2025, quando publicamos nossa retrospectiva de 2024 e alguns planos para o novo ano, muita coisa aconteceu.
Mas agora estamos de volta. E com a promessa de publicar com mais frequência por aqui - com textos fora da caixa, resenhas mais aprofundadas, debates técnicos e, claro, nossas tão queridas pesquisas.
Para marcar esse retorno, trago a vocês a segunda edição da nossa Pesquisa Exploratória de Projetos no Catarse, que chega após a ótima repercussão da primeira (se ainda não leu, vale conferir clicando aqui).
Recebemos muitos elogios e sugestões desde então - o que nos motivou a ampliar o escopo da pesquisa. Nesta nova edição, trazemos dados inéditos e análises mais detalhadas. A pesquisa está dividida em duas partes:
Uma análise descritiva, que traça o panorama atual da produção de quadrinhos no Catarse - evolução, números e a "saúde" da plataforma para esse tipo de projeto.
Uma análise exploratória, onde testamos hipóteses levantadas por profissionais da área (alô, pessoal do Futebol Arte!) e buscamos conexões mais profundas nos dados.
Antes de seguir, um pequeno - e necessário - disclaimer:
Foram muitas noites em claro, madrugadas entre o trabalho e a vida pessoal, escrevendo código para coletar dados, tratar informações, montar gráficos e preparar as análises que você está prestes a ler. Nada disso seria possível sem o apoio da Comic Boom! e do grupo de apoiadores que acreditam e sustentam esse projeto.
Então, um enorme obrigado a:
Fábio e Gabriel, da Comic Boom!
E aos apoiadores: Breno Raphael, Carolina Madruga, Christian Bremmer, Eduardo Ferreira, Erick Valente, Fábio Vieira, Felipe Lino, Gabriel Israel, Gabriel Saraiva, Guilherme Haus, Leandro Souza, Luiz Gustavo (do canal Anti Plano), Matheus Cunha, Miccael Pardinho, Pedro Guarache (do canal Estante Narrada), Rafael Goulart (do canal Batatinha Comics), Samuel Bono, Sergio Teixeira, Thiago Romam e Victor Rolf.
Se você ainda não apoia o Além dos Quadrinhos e tem uma graninha sobrando (sem comprometer o seu orçamento, claro), considere clicar no botão abaixo. Os apoiadores participam de sorteios mensais, grupo de estudos, grupo exclusivo no WhatsApp e, principalmente, viabilizam iniciativas como esta.
Análise Descritiva - Entendendo os padrões
Antes de mergulhar nos gráficos e nos números, vale explicar rapidamente a metodologia usada nesta edição da pesquisa.
Diferente do ano passado - quando precisei construir um crawler para acessar projeto por projeto “manualmente” -, este ano consegui algo melhor: acesso à API do Catarse. A API (Interface de Programação de Aplicações) é uma ferramenta usada pela própria equipe da plataforma para gerar relatórios e acompanhar o desempenho dos projetos. Com esse acesso, foi possível automatizar todo o processo de coleta de dados.
Desenvolvi vários scripts em Python para extrair as informações, limpei a base removendo outliers e dados inconsistentes, e cheguei a um universo de 3.345 projetos, cadastrados entre 11 de agosto de 2011 (data do primeiro projeto na plataforma) e 20 de maio de 2025 (data em que a coleta foi finalizada).
Foram considerados todos os projetos publicados que chegaram ao fim de sua campanha - tendo atingido ou não suas metas - além dos projetos ainda ativos no momento da coleta. Projetos cancelados, seja por decisão dos criadores ou pela própria plataforma, não entraram na conta, por serem dados sensíveis protegidos pela LGPD.
O total movimentado nesses 14 anos foi de impressionantes R$ 42.360.000, um salto de R$ 7.731.600 (ou 22%) em relação à última edição da pesquisa, publicada em fevereiro de 2024.
Para facilitar a leitura e estruturar o storytelling da análise, organizei esta etapa da pesquisa a partir de perguntas simples e diretas, cada uma respondida com um gráfico e comentários breves.
E pra começar:
Como anda o volume de projetos no Catarse, por ano?
Após uma curva ascendente que culminou no recorde de projetos publicados em 2022, observamos um leve declínio nos anos seguintes. Esse movimento, no entanto, parece mais uma estabilização do patamar pós-pandemia do que um sinal de retração preocupante. Ainda estamos bem acima dos números registrados antes da COVID-19, o que indica uma base consolidada para o financiamento coletivo de quadrinhos no Brasil.
📌 Importante observar: quem leu a pesquisa do ano passado pode notar uma diferença nos dados de 2023. Na ocasião, informamos que o ano havia fechado com 405 projetos, mas agora o gráfico mostra 420.
Essa variação é natural. Quando fizemos a coleta em fevereiro de 2024, alguns projetos de 2023 ainda estavam ativos e só foram finalizados após a publicação da pesquisa. Como usamos a data de abertura da campanha como referência, esses projetos entram contabilizados em 2023 - mesmo tendo sido encerrados apenas em 2024.
E teve alguma alteração na taxa de sucesso dos projetos?
Ao olharmos para o gráfico, percebemos que a taxa de sucesso dos projetos continua estável desde 2020, mantendo-se consistentemente acima dos 85%. Isso é um indicativo importante: mesmo com as variações no volume total de campanhas, a confiança do público e o engajamento com os projetos seguem fortes.
Em números:
2024 registrou 410 projetos, dos quais 360 foram financiados com sucesso - uma taxa de 87,8%.
Já em 2023, foram 374 projetos bem-sucedidos de um total de 420, o que representa 89% de sucesso.
Para 2025, embora ainda estejamos no meio do ano, os dados já apontam que a taxa deve seguir nessa mesma faixa - o que reforça a solidez da comunidade em torno dos quadrinhos independentes no Catarse.
Projetos FLEX virou tendência? E considerando apenas Tudo ou Nada (AON), como está a taxa de sucesso?
Para responder a essas perguntas, precisamos de dois gráficos distintos.
O primeiro mostra que sim - os projetos FLEX se consolidaram como tendência desde seu lançamento, em 2016. Em 2019, já haviam igualado o número de projetos Tudo ou Nada (AON), ultrapassando em 2020. A partir daí, a diferença só cresceu: hoje, os projetos FLEX são mais do que o dobro dos AON.
Mais do que isso - o crescimento no volume total de projetos desde 2020 é praticamente todo puxado pelos projetos FLEX. Os AON, por sua vez, estão estagnados, mantendo uma linha estável desde 2022.
Como o modelo FLEX considera bem-sucedido qualquer projeto que arrecade qualquer valor, mesmo que abaixo da meta, olhar apenas a taxa de sucesso geral da plataforma pode ser enganoso. Por isso, vale focar especificamente no desempenho dos projetos Tudo ou Nada.
Neste segundo gráfico, a realidade muda bastante: enquanto a taxa de sucesso geral da plataforma gira em torno de 87,4%, os projetos AON ficam na casa dos 66%.
Ainda assim, há uma leve melhora nos últimos anos:
2023 fechou com 69,8% de sucesso entre os AON.
2024, até agora, mostra 66,9% - um número ainda positivo, dentro da mesma tendência, apesar de uma pequena queda em relação ao ano anterior.
Esses dados ajudam a entender como o modelo FLEX influenciou a paisagem do Catarse - e por que olhar apenas os números gerais pode dar uma visão distorcida do cenário.
E aquele efeito antes dos eventos, o famoso “engarrafatarse”?
Sim - o famoso efeito de concentração de lançamentos antes dos grandes eventos segue firme e forte. E, ao que tudo indica, um padrão que observei na pesquisa passada começa a se confirmar: antes, os projetos costumavam ser lançados com 3 a 4 meses de antecedência em relação aos eventos, mas agora vemos esse movimento começar mais cedo, com 5 a 6 meses de antecedência.
Isso pode indicar que os autores estão se planejando com mais antecedência ou buscando campanhas mais longas para garantir maior alcance antes das feiras.
Alguns números ajudam a ilustrar esse padrão:
A média de lançamentos mensais fora do período de eventos é de 24 projetos por mês.
Já nos meses que antecedem eventos, essa média salta para 39 projetos por mês.
No caso da CCXP, a média chega a 42 projetos.
Para o FIQ, fica em 31 projetos.
E um dado curioso: se isolarmos os meses "comuns" durante a pandemia, vemos uma média de 30 projetos por mês - ou seja, a pandemia gerou um comportamento semelhante ao de um FIQ constante, mesmo sem evento à vista.
Esse padrão reforça o quanto os eventos continuam sendo momentos-chave no calendário do quadrinho nacional, influenciando diretamente o comportamento dos autores e editoras na hora de lançar suas campanhas.
Qual o valor movimentado por ano na plataforma? Vem subindo ou caindo?
Durante as conversas com alguns autores, surgiu uma observação importante: avaliar apenas a quantidade de projetos por ano pode não refletir o real desempenho da plataforma. Afinal, o número pode subir, mas com campanhas menores, de baixo orçamento, e o valor total movimentado cair.
Para responder a isso, levantei os valores anuais arrecadados na plataforma - e agora vamos analisar esses indicadores com mais cuidado:
Assim como aconteceu com a quantidade de projetos, o valor total movimentado teve uma leve queda recente, mas não aponta para uma recessão ou saturação. O que vemos é um ajuste natural após o pico durante a pandemia - uma curva que começa a se normalizar em um novo patamar.
Para efeito de comparação:
Antes da pandemia, o recorde era de R$ 2,88 milhões por ano.
Hoje, mesmo com a leve retração, seguimos acima dos R$ 5,80 milhões anuais.
Ou seja, o Catarse ainda opera com um volume de recursos significativamente maior do que em qualquer momento anterior à pandemia.
Aqui, a tendência é positiva:
Saímos de uma média de R$ 15.900 por projeto em 2023 para R$ 16.100 em 2024.
Essa curva de crescimento começou em 2022 e vem se mantendo estável.
Destaque curioso:
Em 2020 e 2021, durante o auge da pandemia, tivemos nossos maiores valores históricos.
E uma nota de rodapé estatística: em 2011, o valor médio foi de R$ 30.000 - mas havia apenas 1 projeto de sucesso, o que distorce a média daquele ano.
Esse gráfico confirma o que muitos já suspeitavam:
Os projetos Tudo ou Nada (AON) arrecadam mais que os FLEX.
Isso acontece por dois motivos: as metas dos FLEX são geralmente menores, e esses projetos não precisam bater a meta para serem considerados bem-sucedidos.
Em 2024:
AON arrecadaram em média R$ 17.330 (ligeira queda em relação aos R$ 17.826 de 2023).
FLEX ficaram com média de R$ 13.312, o que representa uma alta significativa em relação aos R$ 9.822 de 2023.
Essa subida no valor médio dos FLEX indica uma possível maior confiança do público nesse modelo, ou uma melhoria no planejamento dessas campanhas.
Qual o valor médio da menor recompensa oferecida pelos projetos?
Já que estamos falando de valores, vale observar outro indicador importante: o custo médio da menor recompensa oferecida pelos projetos no Catarse.
Muito se comenta sobre o aumento nos preços de quadrinhos e mangás publicados por editoras - e, de fato, os reajustes foram expressivos desde 2012. Mas o mesmo padrão também se verifica nas campanhas de financiamento coletivo.
Em 2012, a menor recompensa de um projeto custava, em média, R$ 11,88.
Em 2024, esse valor subiu para R$ 36,47 - um aumento de 306% em 12 anos.
E em 2025, a tendência é de nova alta: a média parcial já aponta para R$ 39,60.
Apesar de esse crescimento ser gradual e constante ao longo dos anos, houve um salto mais acentuado entre 2020 e 2021 - justamente no pico da pandemia, quando os custos de produção (como o papel) sofreram seus maiores reajustes.
Esse indicador ajuda a compor o cenário geral: o Catarse acompanhou o movimento do mercado editorial, e o financiamento coletivo deixou de ser apenas um canal alternativo - tornou-se um ambiente profissionalizado, com preços ajustados à nova realidade econômica.
Qual o tamanho do público que apoia os projetos?
O primeiro gráfico mostra a quantidade de pessoas únicas que apoiaram projetos em cada ano. Ou seja, independente de quantos projetos a pessoa apoiou, ela é contada apenas uma vez.
Como era de se esperar, a curva acompanha o mesmo padrão observado no número de projetos e no valor arrecadado: um crescimento até 2021, seguido de uma queda progressiva.
O pico aconteceu em 2021, com 35.707 apoiadores únicos.
Em 2024, esse número caiu para 27.179 - uma redução de 23% desde o pico.
Comparado a 2023 (28.584), a queda foi de 4,9%.
Ao dividir o número de apoiadores únicos pela quantidade de projetos, percebemos uma queda no engajamento médio por campanha.
Antes de 2020, os projetos costumavam ter mais de 200 apoiadores únicos, em média.
Desde a pandemia, esse número não ultrapassa mais os 180.
Esse recuo pode ser atribuído ao aumento no valor das recompensas, que torna o público mais seletivo na hora de escolher quais campanhas apoiar.
Ainda assim, quando cruzamos apoiadores únicos, número de projetos e valor arrecadado, surge um dado interessante:
Em 2024, o apoiador gastou em média R$ 106,00 por apoio.
Em 2021, esse valor era de R$ 85,00.
E em 2017, apenas R$ 60,00.
Ou seja:
Um aumento de 19,8% de 2021 para 2024.
E de 43,3% entre 2017 e 2024.
Conclusão: o público pode estar apoiando menos projetos, mas gastando mais em cada um.
Outro dado relevante que conseguimos extrair é a proporção entre apoiadores recorrentes e novos apoiadores.
Consideramos novo apoiador aquele que está financiando um projeto pela primeira vez, e recorrente quem já participou de outras campanhas.
Em 2024, os apoiadores recorrentes representaram 78,6% do total - contra apenas 22,4% de novos apoiadores.
Mas calma: isso não significa que a plataforma está falhando em atrair público novo. A leitura é mais sutil do que parece.
Analisando os 10 projetos AON com maior percentual de novos apoiadores, temos uma média de arrecadação de R$ 30.055.
Já os 10 projetos AON com menor percentual de novos apoiadores (ou seja, com base mais fiel e recorrente) arrecadaram em média R$ 45.542.
Isso derruba uma ideia comum de que os maiores sucessos do Catarse são aqueles que “furam a bolha” e alcançam um novo público. Essa não é a única forma de alcançar grandes arrecadações.
Projetos como os de Lark, Carlos Ruas, Wesley Mercês, Leandro Assis e Triscila Oliveira realmente tiveram mais de 50% de novos apoiadores - e ocupam o TOP5 em arrecadação na plataforma.
Mas do 6º lugar para baixo, com 7 projetos seguidos da Editora Figura, o percentual de novos apoiadores não passa de 12%, com uma média de apenas 6,46%.
A partir desses dados, fica claro que há duas estratégias distintas, mas eficazes, para alcançar sucesso no Catarse:
Furar a bolha - alcançando novos leitores e expandindo o público.
Fidelizar a base - cultivando apoiadores fiéis dispostos a investir valores mais altos em cada nova campanha.
Ambas as abordagens podem resultar em projetos de alto impacto - a diferença está no tipo de relação construída com o público.
O desafio de manter os “novos apoiadores” na plataforma
Um dos grandes desafios do Catarse - e dos autores que usam a plataforma - é transformar novos apoiadores em apoiadores recorrentes. Muitos dos chamados "projetos fura-bolha" conseguem trazer público novo, mas esse público costuma apoiar apenas aquela campanha específica e depois não retorna.
Até hoje, 164.646 pessoas diferentes já apoiaram pelo menos um projeto de quadrinhos no Catarse. Porém, 120.846 delas participaram apenas de campanhas em um único ano.
Ou seja, mais de 73% do público foi engajado pontualmente, sem continuidade. São leitores e leitoras que chegaram através de um fenômeno isolado - e que, por qualquer motivo, não permaneceram como parte ativa da comunidade.
Esse dado revela um problema estrutural: como fidelizar quem chegou? É uma questão que envolve a plataforma, os autores e os editores - e passa por pensar em estratégias de comunicação, pós-venda, engajamento e construção de comunidade.
Mas há também o outro extremo da curva - e ele é admirável.
Na cauda longa do gráfico, encontramos um grupo seleto: 12 pessoas que apoiaram pelo menos um projeto por ano, todos os anos, desde 2011. São 15 anos consecutivos de apoio ao quadrinho independente brasileiro.
Entre esses nomes, temos alguns rostos bem conhecidos da cena:
Cadu Simões
Daniel Esteves
Zé Wellington
Ricardo Tayra
Felipe Assumpção (o Sunça)
Érico Assis
Francisco Jacobina
Essas figuras representam a resistência e a sustentação do quadrinho nacional via financiamento coletivo. São leitores, autores e entusiastas que seguem apostando no modelo ano após ano, dando corpo à comunidade que mantém a roda girando.
Rapidinha 1: estados que mais publicam projetos e que tem mais apoiadores
São Paulo segue firme como líder absoluto, tanto na quantidade de projetos criados desde 2011 - com 1.654 campanhas - quanto no número de apoiadores residentes - 204.664 pessoas.
Em segundo lugar, aparece o Rio de Janeiro, que lidera as duas listas como maior produtor e maior origem de apoiadores fora de São Paulo.
Rio Grande do Sul e Minas Gerais se alternam nas posições de 3º e 4º lugar nos dois rankings, mostrando presença forte, porém abaixo dos dois gigantes do sudeste.
As regiões Norte e Nordeste ainda apresentam baixa produção, com Pernambuco se destacando no Nordeste com 113 projetos publicados, e Pará liderando o Norte com 23 campanhas.
Esses dois estados também são os maiores geradores de apoiadores nas suas regiões, com 14.138 apoiadores em Pernambuco e 6.026 no Pará.
Rapidinha 2: os maiores projetos da plataforma.
No ranking de maiores projetos de sempre, temos um novo integrante: O Apocalise das Capivaras, de Wesley Mercês, publicado em 2024, ocupa agora a terceira colocação com R$ 556.460,87. O ranking fica assim:
Confinada (Triscilla Olivera e Leandro Assis): R$ 615.143,61
De Onde Viemos? (Carlos Ruas): R$ 589.322,07
O Apocalipse das Capivaras (Wesley Mercês): R$ 556.460,87
O Livro dos Passáros (Lark): 528.764,52
Arlindo (Ilustralú): R$ 385.603,24
Olhando apenas para 2024, o TOP5 é composto por:
O Apocalipse das Capivaras (Wesley Mercês): R$ 556.460,87
No Andar De Baixo (Cartumante): R$ 180.745,35
Cães e Gatos (Carlos Ruas): R$ 158.322,00
Mila e Milio (Editora Mistifório): R$ 136.171,90
História do Oeste 5 e 6 (Editora Saicã): R$ 134.730,23
Note que apenas um projeto não é de autores nacionais.
Vamos agora para a parte exploratória, responder algumas perguntas que me foram feitas por autores brasileiros interessados na pesquisa.
Análise Exploratória - Testando hipóteses
Em um grupo de whatsapp que tenho com alguns quadrinistas, abri para eles a possibilidade de enviarem sugestões de perguntas que gostariam que fossem respondidas pela pesquisa. Essas perguntas ajudaram a direcionar os dados que seriam coletados e a forma como seriam tratados. Como na seção anterior, separaremos por perguntas logo abaixo e darei uma breve descrição do problema.
O prazo entre o início do projeto e a entrega das recompensas tem diminuído?
Essa pergunta reflete um debate importante: o Catarse estaria deixando de ser uma plataforma para viabilizar projetos em desenvolvimento e se tornando, cada vez mais, uma ferramenta de pré-venda?
Historicamente, os projetos eram abertos nas fases iniciais da produção, quando o quadrinho ainda precisava do financiamento para sair do papel. Hoje, muitos autores já lançam campanhas com o livro finalizado - às vezes, já na gráfica ou até mesmo impresso - usando o Catarse como um canal de pré-venda.
Para testar essa hipótese, analisei dois indicadores:
O tempo médio que o projeto fica online, arrecadando recursos.
O tempo médio entre a abertura do projeto e a entrega da primeira recompensa.
No que diz respeito ao tempo médio online, constatamos uma redução significativa:
Até 2016, o prazo médio era próximo de 60 dias.
Após a criação do modelo FLEX, essa média caiu para cerca de 40 dias online.
O modelo AON também reduziu, mas de forma mais suave, chegando a 47 dias online - uma queda de 21% no tempo de arrecadação.
Projetos mais curtos, com menos dinheiro necessário, têm se tornado a norma.
Quanto ao prazo entre o lançamento e a entrega da primeira recompensa:
Nos primeiros anos, a média estava entre 3,2 e 3,6 meses.
Em 2023 e 2024, caiu para cerca de 2,1 meses.
Em 2025, a média preliminar já indica 1,8 meses - uma redução de 50% em relação a 2014.
Desmembrando por modelo:
Os projetos FLEX puxam a média para baixo, com entregas mais rápidas.
Mas os AON também aceleraram a entrega, com médias de 2,6 meses em 2023 e 2024 e 2,2 meses em 2025.
Os dados confirmam que há um movimento claro no Catarse: os projetos são lançados em fases mais avançadas do desenvolvimento, muitas vezes funcionando como pré-vendas, com entregas mais rápidas e campanhas mais curtas.
Projetos AON tem mais chance de atingir a meta que projetos FLEX?
A pergunta pode soar contraditória à primeira vista - afinal, só os projetos AON (Tudo ou Nada) precisam atingir a meta para serem considerados bem-sucedidos. Já os projetos FLEX são contabilizados como sucesso independentemente do valor arrecadado.
Mas o que queremos investigar aqui é: com que frequência os projetos FLEX realmente atingem suas metas? Será que o público engaja do mesmo jeito? Ou, por ser FLEX, acaba sendo mais comum não atingir a meta estabelecida, já que qualquer quantia já garante a conclusão da campanha?
Olhando para os valores médios das metas:
Os projetos AON têm mostrado um crescimento consistente nas metas ao longo do tempo.
Desde 2019, a média aumenta ano após ano.Já os projetos FLEX apresentam flutuações, mas sem uma tendência clara de crescimento.
Nos últimos 6 anos, somente em 2024 a média superou a de 2016.
Ou seja, quem escolhe o modelo FLEX tende a trabalhar com metas mais modestas, enquanto os AON vêm se tornando cada vez mais ambiciosos.
E aqui está a resposta que procurávamos:
Em todas as faixas de metas analisadas, os projetos AON têm mais chance de atingir suas metas do que os FLEX.
Essa tendência sugere que, apesar de o FLEX ser mais flexível (literalmente), ele engaja menos o público em torno do objetivo da campanha. Afinal, como não há “risco” de fracasso, o senso de urgência e compromisso do apoiador pode ser menor.
Autores com mais projetos publicados fidelizam leitores e tem maior taxa de sucesso ao longo do tempo?
Uma dúvida recorrente entre autores é: vale a pena publicar vários projetos no Catarse ou o público se cansa? Os dados mostram que a resposta é justamente o contrário.
Quanto maior o número de projetos publicados por um autor, maior a taxa de sucesso de suas campanhas.
Autores com apenas 1 projeto têm uma taxa média de sucesso de 59,7%.
Para quem tem mais de 10 projetos publicados, essa taxa salta para 96,1%.
Esse padrão se mantém tanto para projetos FLEX quanto para AON, o que reforça a consistência do comportamento.
A explicação está na fidelização do público.
Conforme o autor publica novos projetos, ele passa a contar com uma base crescente de apoiadores recorrentes - leitores que já conhecem seu trabalho e se engajam com mais facilidade a cada nova campanha.
É uma construção de confiança e comunidade: o autor entrega, o leitor apoia de novo. Esse ciclo aumenta a previsibilidade de sucesso e reforça a importância de manter uma presença contínua na plataforma.
Ao contrário do medo de “saturar o público”, os dados mostram que quem publica mais, fideliza mais - e tem campanhas cada vez mais bem-sucedidas.
Se você é autor ou autora independente e pensa em lançar mais de um projeto no Catarse, consistência e relacionamento com o público são grandes aliados para o sucesso a longo prazo.
A participação de editoras “toma dinheiro” dos independentes?
Uma preocupação recorrente entre quadrinistas é o crescimento da participação de grandes editoras no Catarse. Com campanhas de alto impacto como A Lua e A Serpente (Alan Moore, Devir), Jerusalem (Alan Moore, Veneta) e Shmoo (Al Capp, Veneta), surge a dúvida: essas campanhas não estariam desviando recursos que antes iam para os artistas independentes?
Para investigar, primeiro analisei a presença das editoras na plataforma ao longo dos anos.
Considerei como “editora” todo projeto cujo owner é uma empresa editorial - o que inclui desde casas tradicionais como Todavia, Devir, Veneta, Conrad, HarperCollins até selos mais voltados para o quadrinho independente, como Figura, Skript, Mistifório, IndieVisível, Heróica, Hipotética, Tundra, Saicã, Mino, Trem Fantasma, entre outras.
No total, foram 54 editoras diferentes com projetos lançados no Catarse até maio de 2025.
O segundo gráfico mostra a fatia de arrecadação por editoras em comparação aos autores independentes. E o que se vê é revelador:
A participação das editoras está de fato crescendo.
Mas a arrecadação dos independentes também segue em crescimento - não houve recuo.
Ou seja, não há indícios de que editoras estejam “tomando espaço” ou “tirando dinheiro” dos autores independentes. Pelo contrário: os dados sugerem que as editoras ampliaram o alcance da plataforma, atraindo novos públicos e injetando novos recursos.
Ainda é possível argumentar que, sem a presença das editoras, os autores independentes poderiam ter arrecadado mais - mas essa é uma hipótese difícil de testar. Não temos dados suficientes de um período anterior consistente, já que a entrada mais firme das editoras na plataforma acontece de forma gradual a partir de 2018.
O que os dados mostram com clareza é que a presença das editoras não impediu o crescimento dos independentes. O “bolo” aumentou - e parece que todos estão comendo mais fatias.
PLUS: regressão linear autor versus editora
Para confirmar a conclusão acima de maneira mais estatística, fiz uma regressão linear entre os valores arrecadados por editora e por autores, para saber se havia ou não uma correlação negativa entre eles.
O que o modelo acima nos diz é que existe uma relação estatisticamente significativa entre a arrecadação de editoras e de autores. A cada R$ 1,00 levantado por uma editora, os autores arrecadam R$ 0,97.
Portanto, a análise não sustenta a hipótese de que as editoras tomam verba dos autores. Pelo contrário, editoras arrecadarem mais está associado a autores arrecadarem mais também, sugerindo um ambiente de crescimento conjunto e não de competição direta.
Quanto mais recompensas oferecidas, maior a chance de sucesso?
Rodando uma regressão linear, encontramos um R² de apenas 0,004 - o que significa que apenas 0,4% da variação no valor arrecadado pode ser explicada pela quantidade de recompensas oferecidas no projeto.
Traduzindo: essa relação é praticamente irrelevante do ponto de vista estatístico.
O que os dados indicam é que ter muitas recompensas não garante, por si só, mais sucesso.
Projetos com mais opções tendem a ser mais complexos ou com escopos maiores - como campanhas que oferecem diferentes livros, brindes, experiências ou combos. Isso pode refletir uma estrutura mais robusta, não necessariamente um fator determinante de sucesso.
Portanto, não adianta simplesmente abrir um projeto e adicionar 10 tipos de recompensa achando que isso vai melhorar sua campanha. O essencial continua sendo: estratégia, coerência e alinhamento entre o que se oferece e o que seu público valoriza.
Comunicação com os apoiadores (os posts na plataforma) a afeta a taxa de sucesso?
Sim - e os dados mostram que isso vai além da intuição.
Projetos bem-sucedidos publicam, em média, 13 posts ao longo da campanha. Já os que não atingem a meta, ficam com média de apenas 4 posts.
Rodando uma regressão linear, encontramos uma correlação positiva estatisticamente significativa:
Cada post adicional aumenta a chance de sucesso do projeto em cerca de 17,6%.
O R² da regressão é 0,1416, o que significa que 14,16% da variação no sucesso dos projetos pode ser explicada pela quantidade de posts. Isso é 10 vezes mais relevante do que o número de recompensas, por exemplo.
A comunicação importa - e muito.
Mas atenção: não é só a quantidade de posts que conta, e sim a qualidade da comunicação. Atualizações relevantes, mensagens bem escritas, transparência sobre o andamento do projeto, respostas aos comentários - tudo isso constrói confiança com o público e impulsiona o engajamento.
Postar por postar, sem estratégia, não garante sucesso. Mas manter uma comunicação ativa, clara e honesta com seus apoiadores aumenta significativamente suas chances de alcançar (ou superar) a meta.
Ser indicado pelo Catarse (projetos em destaque) é bom para o projeto?
Sim - e os dados mostram que faz muita diferença.
Projetos que não são destacados pelo Catarse têm uma taxa média de sucesso de 70,5%.
Já os projetos destacados saltam para impressionantes 93,5% de sucesso.
Essa diferença é estatisticamente significativa e muito expressiva. Em termos técnicos, o odds ratio é de 6 - ou seja, um projeto em destaque tem 6 vezes mais chance de ser bem-sucedido do que um projeto que não recebeu esse selo.
Entre todos os fatores analisados até aqui - número de recompensas, número de posts, tipo de campanha - ser destacado pela curadoria do Catarse é o que mais impacta positivamente no sucesso da campanha.
Claro que pode haver variáveis confundidoras, como qualidade do projeto, engajamento prévio do público, material gráfico e histórico do autor. Mas o dado é claro: estar em destaque é um diferencial real e potente.
Se você é criador e quer aumentar suas chances de sucesso, vale investir tempo em preparar uma campanha robusta, bem apresentada, com materiais de qualidade, para aumentar suas chances de entrar nos destaques da plataforma.
Quantidade de inscritos na pré-campanha afeta a taxa de sucesso?
Os dados mostram uma curva clara:
Projetos com até 25 inscritos na pré-campanha têm uma taxa média de sucesso de 71,39%.
Já aqueles com mais de 200 inscritos saltam para impressionantes 99,39% de sucesso.
A diferença é evidente também nas médias gerais:
Projetos bem-sucedidos contaram com média de 68 inscritos na pré-campanha.
Projetos malsucedidos, apenas 15 inscritos.
Essa diferença é estatisticamente significativa, com R² = 0,1666 - ou seja, 16,7% do sucesso da campanha pode ser explicado pela quantidade de inscritos na pré-campanha.
É o segundo indicador mais forte entre todos os analisados até aqui, perdendo apenas para o destaque na curadoria do Catarse.
A mensagem é direta: trabalhar bem a pré-campanha importa - e muito.
Fazer barulho antes do lançamento, aquecer a base de leitores, divulgar nas redes, montar lista de e-mails e mobilizar apoiadores potenciais pode mudar completamente o destino de uma campanha.
Se você pretende lançar um projeto no Catarse, não trate a fase de pré-campanha como um detalhe. Ela é um dos pilares do sucesso.
📊 Fechando a análise: o Catarse hoje - e o que aprendemos com os dados
Chegamos ao fim de mais uma edição da nossa Pesquisa Exploratória sobre Projetos de Quadrinhos no Catarse.
Como mencionei no início, não foi um trabalho simples: foram noites em claro, madrugadas entre trabalho e vida pessoal, códigos em Python, tratamento de dados, gráficos e mais gráficos… Tudo isso para entregar a vocês um panorama detalhado, honesto e embasado sobre o que tem acontecido na principal plataforma de financiamento coletivo do Brasil.
Esse esforço só foi possível graças ao apoio da Comic Boom! e, principalmente, de cada uma das pessoas que acreditam no Além dos Quadrinhos e nos apoiam financeiramente no Apoia.se.
Vocês não apenas viabilizam esta pesquisa - vocês garantem que ela continue existindo.
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Até a próxima edição - e obrigado por ler até aqui.







































Incrível o conteúdo! Estou iniciando um projeto de HQ's, estamos iniciando com um conto literário fictício por escrito por enquanto... Dêem uma olhadinha lá no @azzanigeekoficial
Uau! Parabéns pelo trabalho.